
Amanhã é o domingo que contemplei pela primeira vez quando era uma aluna
de 5ª série, brincando com a agenda. Depois de hoje à noite, os meus
vinte anos vão ter se acabado, serão um capítulo fechado para sempre. A
sensação que eu tenho me faz lembrar das noites de Ano-Novo, quando a
contagem regressiva começa e eu fico na dúvida entre pegar minha câmera
ou apenas viver o momento. Geralmente pego a câmera e mais tarde me
arrependo quando a foto não sai. Então fico extremamente frustrada e
penso comigo mesma que a noite teria sido mais divertida se não
significasse tanto, se eu não fosse forçada a analisar onde estivera até
aquele momento e para onde estava indo.
Como as noites de Ano-Novo, esta noite representa um final e um começo.
Não gosto de finais e começos. Se pudesse escolher, ficaria oscilando
entre os dois extremos. A pior coisa desse final (da minha juventude) e
desse começo (da meia-idade) é que, pela primeira vez na vida, percebo
que não sei para onde estou indo. Meus desejos são simples: um trabalho
de que eu goste e um cara que eu ame. E na noite do meu trigésimo
aniversário tenho de reconhecer que estou perdendo por 2 a 0.
Em primeiro lugar, sou advogada de um grande escritório de Nova York.
Por definição isso significa que sou uma desgraçada. Ser advogada
simplesmente não corresponde ao que dizem por aí - não tem nada a ver
com L.A. Law, o programa de TV que fez com que a procura por curso de
Direito aumentasse vertiginosamente no início dos anos 1990. Trabalho
durante horas torturantes, cuidando das tarefas mais tediosas para um
dos advogados associados do escritório, que é mesquinho e obsessivo. E
esse tipo de ódio pelo próprio trabalho é uma coisa que começa a crescer
aos poucos em você. É por isso que já sei de cor o mantra das pessoas
que trabalham em escritórios de advocacia: Odeio meu trabalho e logo,
logo vou pedir demissão. Logo que pagar meus empréstimos. Logo que
ganhar o bônus do próximo ano. Logo que pensar em alguma outra coisa
para fazer que pague o meu aluguel. Ou logo que achar alguém que passe a
pagar por mim.
O que leva à minha segunda constatação: estou sozinha numa cidade de
milhões. Tenho vários amigos, como ficou comprovado pela presença maciça
esta noite. Amigos para andar de patins. Amigos para veranear nos
Hamptons. Amigos para encontrar na quinta à noite depois do trabalho,
para um, dois, ou três drinques. E tenho Sophia, minha melhor amiga, que
nasceu no mesmo lugar que eu e sintetiza tudo isso que acabei de dizer.
Só que todo mundo sabe que amigos não são tudo, embora muitas vezes eu
diga o contrário, apenas para não ficar mal diante das minhas amigas
casadas e noivas. Eu não tinha planos de estar sozinha quando chegasse
aos trinta, mesmo ao início dos trinta. A esta altura eu já queria ter
um marido; queria ter ficado noiva na faixa dos vinte. Mas aprendi que a
gente não pode simplesmente fazer um cronograma pessoal e desejar que
se torne realidade. Então aqui estou eu, às portas de uma nova década,
chegando à conclusão de que estar sozinha faz dos meus trinta anos uma
coisa assustadora, e de que ter completado trinta faz com que eu me
sinta mais sozinha.
A situação parece ainda mais sombria porque a minha melhor amiga, e a
mais antiga, tem um trabalho glamouroso como relações públicas e ficou
noiva há pouco tempo. Sophia continua sendo a sortuda da turma. Estou a
observando agora, enquanto ela conta uma história para um grupo de
amigos nossos, incluindo o noivo dela. Arthur e Sophia formam um belo
casal, magros e altos, ambos com cabelos escuros e olhos verdes. Eles
fazem parte da alta sociedade de Nova York. São o tipo de casal bem
arrumado que vai ao sexto andar da Bloomingdales's fazer listas de
casamento que incluem porcelana fina e cristais. Você odeia o ar
presunçoso deles, mas não consegue deixar de olhar quando está no mesmo
andar, em busca de •um presente "não tão caro" para o último de uma
série de casamentos para os quais você foi convidada sem ter um
namorado. Você se estica para dar uma espiada no anel dela e no mesmo
instante se arrepende. Ela percebe e lança um olhar de desprezo na sua
direção, enquanto checa você de cima a baixo. Você desejaria não ter ido
de tênis para a Bloomingdales's. Ela provavelmente fica achando que os
sapatos talvez sejam parte do seu problema. Você compra então o seu vaso
Waterford e se manda dali.
- Moral da história: se você quer uma depilação à brasileira, seja bem
específica. Diga à depiladora para deixar uma margem de segurança ou vai
acabar sem nada, como uma menininha de dez anos de idade! - Sophia
conclui sua historinha indecente e todo mundo ri. Com exceção de Arthur,
que balança a cabeça como se dissesse "que figura esta minha noiva".-
Certo. Volto já, já - declara ela, de repente. - Uma rodada de tequila
para todos!
Enquanto ela se afasta do grupo em direção ao bar, começo a me lembrar
de todos os aniversários que celebramos juntas, todos os marcos que
atingimos juntas, marcos que eu sempre atingi primeiro. Tirei minha
carteira de motorista antes dela e pude legalmente beber antes dela. Ser
mais velha, mesmo que por apenas alguns meses, costumava ser uma coisa
boa. Mas agora nossa sorte mudou. Sophia tem um verão a mais na faixa
dos vinte — uma vantagem de ter nascido no outono. Não que isso faça
muita diferença para ela: quando você está noiva ou é casada, fazer
trinta anos simplesmente não é a mesma coisa.
Neste momento Sophia está debruçada no bar, dando bola para um cara de
vinte e poucos anos, aspirante a ator/barman a respeito do qual ela já
declarou que, se fosse solteira, “traçaria” facilmente. Como se algum
dia Sophia fosse ser solteira. Uma vez, quando estávamos no segundo
grau, ela disse:
— Eu não termino, eu troco.
Continua....
Nenhum comentário:
Postar um comentário