
Pensei nos meus pais, que estavam na faixa dos trinta, e na maneira
displicente com que tratavam os próprios aniversários. Meu pai acabara
de dar uma torradeira de aniversário para minha mãe, porque a nossa
havia quebrado na semana anterior. A torradeira nova torrava quatro
fatias de pão ao mesmo tempo, em vez de apenas duas. Não era exatamente
um presente, mas minha mãe pareceu bem satisfeita com seu novo
eletrodoméstico. Em nenhum momento pude identificar nela a decepção que
eu sentia quando meus presentes de Natal não correspondiam às minhas
expectativas. Então Sophia provavelmente tinha razão. Coisas divertidas
como aniversários não teriam tanta importância quando chegássemos aos
trinta.
Só fui pensar outra vez nesse assunto no último ano da escola, quando
Sophia e eu começamos a ver uma série meio triste na televisão. Nós
preferíamos programas mais alegres, mas mesmo assim assistíamos. Meu
grande problema com essa série eram os personagens, que viviam se
queixando, e as questões deprimentes que eles pareciam estar sempre
atraindo. Lembro de achar que eles tinham mais era que crescer e parar
com frescuras, parar de ficar tentando entender o sentido da vida e
começar a fazer a lista do supermercado. Isso foi na época em que eu
pensava que os meus anos de adolescência estavam se arrastando demais e
que os meus vinte anos certamente durariam para sempre.
Então cheguei aos meus vinte anos. E os primeiros anos dessa década
realmente pareceram intermináveis. Quando ouvia pessoas que eu conhecia e
que eram um pouco mais velhas do que eu lamentando o fim da juventude,
eu ficava toda prosa, não me sentia ainda na zona de perigo. Tinha tempo
de sobra. Até que cheguei aos 27, quando os dias de ter de apresentar
carteira de identidade para provar a idade se tornaram coisa do passado e
quando comecei a ficar impressionada com a repentina aceleração dos
anos, e com as conseqüentes rugas e os primeiros cabelos brancos (nessa
época sempre me lembrava dos monólogos anuais da minha mãe enquanto
tirava do armário os enfeites de Natal). Aos 29, um verdadeiro pavor se
instalou, e eu me dei conta de que de certo modo era como se eu já
tivesse trinta. Mas nem tanto. Porque ainda poderia continuar dizendo
que tinha vinte e poucos. Ainda tinha algo em comum com estudantes
universitários em vias de se formar.
Descobri que trinta era apenas um número, que a gente tem a idade que
sente que tem e tudo o mais. Também me dei conta de que, sob um ponto de
vista mais abrangente, uma pessoa de trinta ainda é jovem. Mas não tão
jovem. Está longe, por exemplo, da idade mais adequada para se ter
filhos. É tarde demais para, digamos, começar a treinar para ganhar uma
medalha olímpica. Mesmo considerando-se a hipótese de morrer em idade
avançada, ainda assim a gente está a um terço do caminho para cruzar a
linha de chegada. Por isso, não consigo evitar uma certa inquietação ao
me sentar num sofá marrom-avermelhado bem fofo, numa sala escura no
Upper West Side, na minha festa-surpresa de aniversário organizada pela
Sophia, que ainda é minha melhor amiga.
Continua....
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