quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Noivo da Minha Melhor Amiga - Capitulo 1 parte um


 
 
Pensei nos meus pais, que estavam na faixa dos trinta, e na maneira displicente com que tratavam os próprios aniversários. Meu pai acabara de dar uma torradeira de aniversário para minha mãe, porque a nossa havia quebrado na semana anterior. A torradeira nova torrava quatro fatias de pão ao mesmo tempo, em vez de apenas duas. Não era exatamente um presente, mas minha mãe pareceu bem satisfeita com seu novo eletrodoméstico. Em nenhum momento pude identificar nela a decepção que eu sentia quando meus presentes de Natal não correspondiam às minhas expectativas. Então Sophia provavelmente tinha razão. Coisas divertidas como aniversários não teriam tanta importância quando chegássemos aos trinta.
Só fui pensar outra vez nesse assunto no último ano da escola, quando Sophia e eu começamos a ver uma série meio triste na televisão. Nós preferíamos programas mais alegres, mas mesmo assim assistíamos. Meu grande problema com essa série eram os personagens, que viviam se queixando, e as questões deprimentes que eles pareciam estar sempre atraindo. Lembro de achar que eles tinham mais era que crescer e parar com frescuras, parar de ficar tentando entender o sentido da vida e começar a fazer a lista do supermercado. Isso foi na época em que eu pensava que os meus anos de adolescência estavam se arrastando demais e que os meus vinte anos certamente durariam para sempre.
Então cheguei aos meus vinte anos. E os primeiros anos dessa década realmente pareceram intermináveis. Quando ouvia pessoas que eu conhecia e que eram um pouco mais velhas do que eu lamentando o fim da juventude, eu ficava toda prosa, não me sentia ainda na zona de perigo. Tinha tempo de sobra. Até que cheguei aos 27, quando os dias de ter de apresentar carteira de identidade para provar a idade se tornaram coisa do passado e quando comecei a ficar impressionada com a repentina aceleração dos anos, e com as conseqüentes rugas e os primeiros cabelos brancos (nessa época sempre me lembrava dos monólogos anuais da minha mãe enquanto tirava do armário os enfeites de Natal). Aos 29, um verdadeiro pavor se instalou, e eu me dei conta de que de certo modo era como se eu já tivesse trinta. Mas nem tanto. Porque ainda poderia continuar dizendo que tinha vinte e poucos. Ainda tinha algo em comum com estudantes universitários em vias de se formar.
Descobri que trinta era apenas um número, que a gente tem a idade que sente que tem e tudo o mais. Também me dei conta de que, sob um ponto de vista mais abrangente, uma pessoa de trinta ainda é jovem. Mas não tão jovem. Está longe, por exemplo, da idade mais adequada para se ter filhos. É tarde demais para, digamos, começar a treinar para ganhar uma medalha olímpica. Mesmo considerando-se a hipótese de morrer em idade avançada, ainda assim a gente está a um terço do caminho para cruzar a linha de chegada. Por isso, não consigo evitar uma certa inquietação ao me sentar num sofá marrom-avermelhado bem fofo, numa sala escura no Upper West Side, na minha festa-surpresa de aniversário organizada pela Sophia, que ainda é minha melhor amiga.
 
Continua....

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