
Neste caso ela manteve a palavra; era sempre ela quem dispensava.
Durante toda a nossa adolescência, faculdade e juventude, Sophia esteve
ligada a alguém. Em geral ela tem mais de um cara esperançoso por perto.
De repente me ocorre que eu poderia me ajeitar com o barman. Estou
totalmente desimpedida — nem ao menos saí com alguém nos últimos dois
meses. Mas não me parece uma coisa que alguém devesse fazer aos trinta.
Viver uma aventura de uma noite é para meninas que estão na casa dos
vinte. Não que naquela época eu soubesse disso. Meu caminho sempre foi o
do bom comportamento, o de uma pessoa certinha, sem desvios. Tirava dez
em tudo na escola, entrei para o segundo grau, me formei com grandes
honras, fiz a prova para entrar no curso de Direito, fui direto para a
faculdade e depois para um grande escritório de advocacia. Nada de sair
pela Europa de mochila, nada de histórias malucas, nada de paixões
doentias ou tórridas. Nada de segredos. Nada de intrigas. E agora parece
que é tarde demais para qualquer coisa do tipo. Porque esse negócio
apenas retardaria ainda mais os meus planos de encontrar um marido, de
me estabelecer, ter filhos e um lar feliz com gramado, garagem e uma
torradeira que torra quatro fatias de pão de uma só vez.
Sendo assim, fico apreensiva a respeito do futuro e, de certa forma,
arrependida em relação ao passado. Digo a mim mesma que haverá tempo de
ponderar a questão amanhã. Neste exato momento vou me divertir. É o tipo
de coisa que uma pessoa disciplinada pode simplesmente decidir. E sou
extremamente disciplinada — o tipo de criança que fazia o dever de casa
na sexta-feira à tarde, logo depois da escola, o tipo de mulher (já que a
partir de amanhã não restará mais nada de menina em mim) que passa fio
dental todas as noites e que faz a cama todas as manhãs.
Sophia volta com as bebidas, mas Arthur recusa a dele, então ela insiste
que eu fique com duas. Antes que eu perceba, a noite começa a adquirir
aquela nebulosidade, entra naquele estágio em que você passa da condição
de alegre para a de bêbada, perdendo a noção do tempo e da ordem exata
das coisas. Pelo jeito, Sophia atingiu esse estado até antes de mim,
porque neste exato momento ela está dançando sobre o bar, rodopiando e
serpenteando num minúsculo vestido modelo frente-única e com um salto de
sete centímetros.
— Roubando a cena na sua festa — cochicha comigo Mel, minha melhor amiga do trabalho. — Ela não tem vergonha.
Eu rio.
— É, isso é a cara dela.
Sophia solta uns gritinhos, bate palmas com os braços para o alto e me
convoca com uma expressão sedutora que agradaria qualquer homem que já
tenha alguma vez fantasiado com mulheres interagindo com mulheres.
— Lua, Lua, vem pra cá!
É claro que ela sabe que eu não vou me juntar a ela. Jamais dancei em
cima de um bar. Não saberia o que fazer lá em cima, a não ser cair.
Balanço a cabeça e rio, uma recusa educada. Ficamos todos aguardando a
próxima jogada, que consiste em girar os quadris exatamente no ritmo da
música, ir se inclinando aos poucos e depois voltar bruscamente para
endireitar o corpo, o cabelo se esparramando para todos os lados. A
flexibilidade da manobra me faz lembrar de sua imitação perfeita de
Tawny Kitaen no clipe de “Here I Go Again”, do Whitesnake, da maneira
como ela rodopiava e fazia spaccati no capô do BMW do pai dela, para
deleite dos adolescentes da vizinhança. Olho para Arthur, que nesses
momentos nunca sabe se acha divertido ou se fica irritado. Dizer que o
cara é paciente é pouco. Arthur e eu temos isso em comum.
— Feliz aniversário, Lua! — grita Sophia. — Vamos todos fazer um brinde à Lua!
E é o que todos fazem. Sem desgrudar os olhos dela.
Continua...
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