
Eu estava na 5ª série quando pensei pela primeira vez sobre fazer trinta
anos. Um dia, eu e minha melhor amiga Sophia pegamos uma agenda e
abrimos no final, onde havia um calendário perpétuo que permitia
consultar qualquer data no futuro e, por meio de uma pequena tabela,
determinar qual seria o dia da semana correspondente. Então localizamos
nossos aniversários do ano seguinte, o meu em maio e o dela em setembro.
O meu caía na quarta, uma noite de aula. O dela caía na sexta. Uma
vitória pequena, mas típica. Sophia era sempre a mais sortuda. Sua pele
se bronzeava mais rápido, seu cabelo era mais fácil de modelar e ela não
precisava de aparelho nos dentes. Ela fazia passos de break como
ninguém, assim como dava estrelas e cambalhotas para frente (eu nem
mesmo sabia dar cambalhotas). Tinha a melhor coleção de adesivos. Mais
bótons do Michael Jackson. Suéteres Forenza em turquesa, vermelho e
pêssego (minha mãe não me deixava ter nenhuma — dizia que eram modismos e
muito caras). Tinha também um jeans de cinqüenta dólares da Guess, com
zíperes na lateral do tornozelo, além de dois furos em cada orelha e um
irmão, o que era melhor do que ser filha única como eu.
Pelo menos eu era alguns meses mais velha e ela nunca poderia me
alcançar. Foi aí que decidi checar meu trigésimo aniversário — num ano
tão distante que soava como ficção científica. Caía num domingo, o que
significava que meu marido boa-pinta e eu providenciaríamos uma babá
responsável para os nossos dois (possivelmente três) filhos na noite de
sábado, jantaríamos num sofisticado restaurante francês com guardanapos
de pano e ficaríamos fora até depois da meia-noite, de forma que,
tecnicamente, estaríamos celebrando na data real do meu aniversário. Eu
teria acabado de ganhar uma grande causa, de provar a inocência de um
homem da cidade. E meu marido faria um brinde em minha homenagem: “À
Lua, minha linda esposa, mãe dos meus filhos e a melhor advogada da
cidade.” Compartilhava minha fantasia com Sophia quando descobrimos que
seu trigésimo aniversário caía numa terça-feira. Uma decepção para ela.
Observei enquanto ela apertava os lábios processando a informação.
— Você sabe como é, Lua, quem se importa com o dia da semana em que cai o
aniversário de trinta anos? — ela disse, sacudindo os ombros macios e
bronzeados. — Até lá nós já estaremos velhas. Os aniversários não
importam quando a gente fica velha.
Continua....
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